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Nasreddin Hodja foi um famoso trapaceiro que viveu na Turquia no século VII. Certa vez, Nasreddin atravessou uma fronteira de volta a seu país caminhando enquanto puxava um burro por uma corda. Nas costas do burro havia uma enorme pilha de palha. O guarda da patrulha da fronteira, ciente da reputação de truques de Nasreddin, tinha certeza de que ele devia estar contrabandeando alguma coisa e, determinado a pegar a trapaça, o parou para interrogação.

 

"O que você está contrabandeando?" o guarda perguntou a Nasreddin. "Nada", disse Nasreddin. "Eu vou revistar você", disse o guarda já fazendo exatamente isso. Revistou Nasreddin desembalando o enorme pacote de palha no burro, porém não encontrou nada. Frustrado, ele deixou Nasreddin passar.

Alguns dias depois, Nasreddin estava de volta com um burro cheio de paus e palha. Novamente ele foi revistado e novamente nada foi encontrado. Durante meses, isso continuou a cada duas semanas. O mesmo Nasreddin, com um burro e uma pilha de material inútil, mas nada valioso foi encontrado.

Finalmente um dia o guarda completamente frustrado falou com Nasreddin. "Hoje é meu último dia de trabalho". Sei que você tem contrabandeado algo, mas não consegui descobrir o que é. Isso tem me mantido acordado à noite. Estou saindo do meu emprego, para não ter mais problemas com você, mas, por favor, me diga o que você está roubando”. "Tudo bem então", disse Nasreddin, "eu venho contrabandeando burros".

Em nossa busca diária para resolver problemas, estamos procurando nos lugares certos ou procuramos problemas em feixes de palha? A anedota ilustra a noção de que seres humanos são consistentemente, rotineiramente e profundamente tendenciosos. Nós não apenas estamos sempre cheios de vieses, como também quase nunca estamos conscientes sobre o fato de estarmos enviesados. O fato de não sabermos pode resultar em comportamentos prejudiciais para o coletivo e para nós mesmos, visto que tais vieses influenciam nossas emoções e, consequentemente, nossa postura diante de determinadas situações.

Quando nos deparamos com determinados problemas, temos uma tendência a nos voltar rapidamente para as soluções que fazem mais sentido e geralmente perdemos outras possibilidades que estão bem à nossa frente. Isso acontece porque, como muitas pesquisas e autores vêm demonstrando ao longo dos anos, muitas vezes os indivíduos que resolvem um problema recombinam experiências e aprendizagens passadas de maneiras novas.

Uma pessoa aprende diferentes coisas ao longo de sua vida, e essas aprendizagens isoladas são frequentemente recombinadas durante a resolução de um problema. Na ausência total de aprendizagens prévias, é possível que a situação problema nem se configure como de fato um problema para o indivíduo. Por exemplo, diante de símbolos matemáticos impressos numa folha de papel, uma pessoa que nunca ouviu falar de matemática (uma criança pré-escolar, por exemplo) nunca trataria aquilo como um problema a ser resolvido.

Assim, é fato que nosso repertório comportamental (aquilo que podemos, sabemos e somos capazes de fazer, dadas as circunstâncias adequadas) já é cheio de aprendizagens prévias que possibilitam a construção de outros repertórios mais complexos. Ninguém aprende a dirigir, por exemplo, sem antes ter aprendido noções básicas de movimento e velocidade ou mesmo sem saber o que é um carro.

Aprender e buscar novos conhecimentos continuamente é, portanto, uma necessidade que se justifica quando nos damos conta da importância de tais aprendizagens para a forma como nos apresentamos ao mundo, como respondemos às demandas da vida. Algumas aprendizagens, no entanto, podem atrapalhar a resolução de um problema, criando o que chamamos de rigidez funcional diante de algumas situações.

A rigidez funcional é produzida por determinados direcionamentos que elementos da situação problema provocam nas pessoas envolvidas. Por exemplo, você certamente sabe para que serve um lápis de cor. Se eu lhe pedisse para listar os usos do lápis, você o faria através daquilo que aprendeu: “um lápis de cor serve para colorir, escrever, desenhar e pintar”. Certo, o que mais? Diante dessa pergunta você pode até pensar em alguns usos alternativos, mas, devido àquilo que lhe foi ensinado, você irá experienciar algumas dificuldades, pois já há um direcionamento de sentidos. Ou seja, possuímos o rígido entendimento acerca das funções de um lápis de cor. Jennifer Maestre, por outro lado, é uma artista que usa esta ferramenta comum de arte de uma maneira inusitada. Suas esculturas feitas com lápis coloridos possuem aparências peculiares.

Além do campo prático de aplicação de conhecimentos e expansão de possibilidades, a rigidez funcional pode contribuir para a cristalização de vieses emocionais, prejudicando a maneira como lidamos com nossas emoções e influenciando o modo como reagimos ao mundo. Isso significa que, por vezes, reações emocionais negativas (como agressividade frente a sentimentos de raiva e frustração, por exemplo) podem ser vistas como a única resposta possível diante de certos problemas, desconsiderando seus prejuízos e alternativas.

Apesar dos entraves da rigidez funcional, é possível, a partir da prática, se tornar um exímio recombinador de aprendizagens isoladas. Exímios recombinadores são capazes de transpor a rigidez funcional e tendem a ser inventivos mesmo em situações padronizadas. Para isso, é preciso tentar e praticar. Quanto maior a diversidade e o volume de tentativas, maiores as chances de uma solução diferente, produtiva e inovadora.

Dito isto, é essencial cultivar a noção de que não somos imunes a vieses e preconceitos, por mais que queiramos acreditar que somos. Reconhecê-los é importante porque tais preconceitos causam impacto em todos os aspectos de nossas vidas, não só na maneira como aprendemos e resolvemos problemas. Eles afetam a maneira como reagimos a ameaças, como lidamos com emoções próprias e alheias, causam impacto na maneira como médicos e pacientes interagem, afetam os julgamentos que fazemos sobre os outros.

Na vida organizacional, influenciam a maneira como entrevistamos pessoas, quem contratamos, a quem atribuímos tarefas, quem promovemos e em quem estamos dispostos a nos arriscar. De fato, preconceitos deixam sua marca em praticamente todos os aspectos da vida organizacional. Eles também afetam a maneira como os professores educam os alunos e o modo como os pais tratam seus filhos. Praticamente todas as decisões importantes que tomamos na vida são influenciadas por esses preconceitos, e quanto mais eles permanecem inconscientes, menor a probabilidade de tomarmos as melhores decisões possíveis.

Não é à toa que estabelecemos leis que limitam o comportamento tendencioso das pessoas e as responsabilizam por comportamentos discriminatórios. Instituímos diretrizes de diversidade e inclusão e programas de treinamento para milhões de pessoas em escolas, grandes corporações, pequenas empresas, agências governamentais, instituições sem fins lucrativos e militares para nos ensinar a ser mais "tolerantes". Escrevemos milhares de livros, produzimos inúmeros filmes, desenvolvemos movimentos sociais, marchas de protesto organizadas, tudo isso para tentar entender o problema e tentar consertá-lo.

Mais do que nunca, as pessoas percebem que criar uma sociedade inclusiva e culturalmente competente faz sentido. As empresas reconhecem o impacto de obter os melhores funcionários com uma força de trabalho cada vez mais diversificada em ambientes mais engajados (que permitem que as pessoas tenham um desempenho de mais alto nível) para atender a uma base de clientes cada vez mais diversa e global. Os profissionais de saúde reconhecem que a remoção do viés e a compreensão dos padrões culturais dos pacientes não apenas cria maior equidade, mas também gera melhores resultados para a saúde física e emocional do paciente. As instituições educacionais sabem que um corpo discente diversificado cria uma melhor experiência escolar para seus alunos e a qualidade do ensino melhora quando os professores demonstram mais inclusão e menos preconceito. Até os políticos estão percebendo as limitações de uma agenda que se baseia no ódio contra um grupo ou outro.

Viver em sociedade exige uma constante força adaptativa e reinventiva que não pode ser alimentada se nos deixamos conduzir por vieses, preconceitos e sentidos rigidamente estabelecidos sem pensarmos sobre eles. Transformar nossos modos fundamentais de viver e estar no mundo requer a aprendizagem constante de novas informações e comportamentos. Também exige uma mudança de mentalidade e emoções. Só assim podemos tomar consciência de nossas escolhas e do mundo que nos cerca. Como disse Mary Oliver, uma premiada poeta estadunidense, “se você notar alguma coisa, isso o levará a perceber cada vez mais coisas”.

 

Referências

DUNKER, K. On problem solving. Psych Monographs, n° 58, p. 270, 1945.

NEVES FILHO, H. B. Criatividade: suas origens e produtos sob uma perspectiva comportamental. Fortaleza, CE: Imagine Publicações, 2018.

ROSS, H. J. Everyday bias: Identifying and navigating unconscious judgments in our daily lives. Rowman & Littlefield, 2020.

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